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Mostrando postagens de outubro, 2020

“Nada é para sempre, dizemos, mas há momentos que parecem ficar suspensos, pairando sobre o fluir inexorável do tempo.” José Saramago

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E é bom que não seja; assim temos oportunidade de rememorar e saborear o que fez diferença. É isso. Eu não exauri tudo o que estava latente em mim. Preciso de mais espaço para acrescentar momentos e acolher emoções vividas com meus pais. Vamos lá. Aos domingos, depois da missa das 8, íamos todos ao cinema pela manhã (matiné). Assisti praticamente todos os filmes do Mazzaropi entre outros clássicos inesquecíveis. Conheci todos os cinemas da época. À tarde, passeio no parque Municipal. Esse programa era sempre com a mamãe a nos observar em todos os brinquedos. As fotos com profissionais que tinham aquelas máquinas que precisavam cobrir a cabeça: fazendo pose, caras e bocas; mágico. Tomei gosto por fotografia. Havia os fins de semana em Mateus Leme, na casa dos avós e tios onde encontrávamos os primos. Pura festa. Papai gostava de música; colecionava discos, especialmente mexicanos e orquestrados como do Billy Vaughn. Me chamava para escutar. Inúmeras vezes o vi emocionar-se. E ia me ensi...

“O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas!” Guimarães Rosa

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Realmente ficam encantadas, especialmente as que deixaram cheiro, gosto, som e cor preenchendo um espaço além da conta e além do tempo. E meu vô Domingos deixou tudo isso em mim há 50 anos atrás, em seu momento de encantamento e continua me impregnando a alma e a mente. Para o meu coração adolescente foi um acontecimento delicado, tendo medo e dor. Medo pelo meu pai e dor pelo vislumbrar da perda. Mas a atitude do papai diante do inevitável me surpreendeu mais uma vez pela aceitação e gratidão pelo vivido e recebido. A relação deles era tão bonita que me fascina até hoje. Havia cumplicidade, obediência sem poder, e respeito permeados de leveza. Era prazeroso de olhar e escutar os diálogos entre eles.   Mas agora quero voltar bem antes quando eu era bem pequena. Morávamos na casa rosa de dois andares. Quando o vovô chegava, normalmente sozinho, sempre vestido de terno, com a cabeça raspada e chapéu que sombreava seus olhos azuis enormes e que papai herdou. Ao entrar, a presença dele...

“A melhor coisa que podemos fazer por aqueles que amamos é sermos melhores como seres humanos, porque só assim teremos realmente algo a dar a eles.” Platão

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E esta frase de Platão novamente me remete aos meus pais. É essencial mencioná-los em cada etapa e detalhe. É o mínimo que posso fazer para tentar retribuir tudo que recebi. E como o amor transformou o meu destino como um milagre, venho tentando ser e fazer o meu melhor, honrando e agradecendo todos os dias de minha vida. Pelas noites sem dormir, pelas preocupações e processos vividos desde o nascimento, pelos choros engolidos e lágrimas estancadas. Impossível não mensurar tudo que senti ao tocar sensações e sentimentos experimentados ao longo da nossa efêmera convivência. Foi amoroso e visceral; intenso e dual; leve e profundo. Os diálogos e conversas passeavam em todos os tons e cores. Somos a tríade do fogo: Áries, Leão e Sagitário. Papai era intenso e presença; mamãe leve, doce, mas firme. Eram cúmplices e sustentavam o que diziam. Vocês conseguem imaginar o que isso representa?! Imbatíveis, não se rendiam. Trago lembranças memoráveis da minha tenra infância: brincadeiras, pirraças...

“Calma na alma, que a vida se encarrega de explicar as coisas que hoje não tem sentido” Sônia S Sevilha

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“Eu pensei que 2020 seria o ano de conquistar tudo o que eu planejei, mas 2020 foi o ano que aprendi a valorizar tudo o que já tenho.” Autor desconhecido Assim, a alma vai-se acalmando, trazendo aceitação e gratidão ao que venho experimentando desde o início desta Pandemia. E, vivendo um dia de cada vez, as coisas vão se explicando e se assentando.  Ainda estou recebendo os ventos e brisas da semana da criança em meu corpo e coração, sendo tomada por emoções e sensações que se misturam, acordando sentimentos adormecidos ou em repouso neste vasto universo que me habita e que sou. Talvez, aconteça com vocês também. Essa data me remete a lugares e momentos inesquecíveis e que só foram possíveis pelos pais que tenho, apesar deles já terem feito a passagem há muito tempo. Eles foram e são o melhor presente e a maior de todas as bênçãos que recebi. Sem eles, eu não teria conseguido ser quem sou e nem chegado aonde cheguei, pelo amor, cuidado e educação que recebi. Tenho uma amiga que diz...

“A criança é o amor feito visível” Friedrich Goethe

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E o amor feito visível nos faz vislumbrar lindezas no cotidiano com a curiosidade e criatividade da nossa criança interior. E conforme escrevi no último Post, por ter dado asas à minha criança e colocado meu ego para descansar na cama de flores; me esqueci do texto de hoje.  Assim busquei uma de minhas poesias bem antigas, que traz todas as delicadezas das quais estamos em falta nesta Pandemia.  Felicidade Para ser feliz é preciso quase nada: apenas a harmonia do eu interior com a humanidade, natureza e espaço. O acorde do real a deslizar na fantasia, em compasso com nossos passos, no túnel do tempo. O ímpeto de soltar bolinhas de sabão rumo ao infinito, estourar balão em festa de aniversário, e tomar sorvete na beira da calçada. O deixar-se levar pela carícia da brisa e o leve torpor do amanhecer ao se espreguiçar para um novo dia. O despertar na segurança de um abraço, os olhos a levitar em paragens do agora e a boca a matar a sede, no orvalho do corpo em repouso. A consciên...

“Todos têm uma criança alegre dentro de si, mas poucos a deixam viver.” Augusto Cury

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“Não é que você seja diferente, mas é que ninguém consegue ser igual a você.” Somos únicos e precisamos ter coragem para escutar essa criança e deixá-la se manifestar diante do cotidiano, por todos os dias de nossas vidas. É nossa essência, nosso corpo de emoção que carrega todas as memórias e lembranças, mesmo não se lembrando, está lá. O corpo é a expressão materializada da alma. E é para essa criança que a minha escreve hoje. Vamos fazer uma viagem. Na inocência e criatividade construí no imaginário uma pequena cama enfeitada de flores de todos os cheiros e cores com folhinhas de alecrim, como orvalho do mar. Depois de tudo arranjado convidei com gentileza meu ego: a minha parte que pensa, para descansar neste lugar que idealizei especialmente para ele enquanto eu pudesse me expressar sem um crítico ou juiz apontando o dedo em riste ou me dirigindo um olhar reprovador. Usei todos os recursos nessa meditação. Assim, enquanto a mente descansava, me deliciei, me esbaldei, mas também fi...

“Tudo o que muda a vida vem quieto no escuro, sem preparos de avisar” Guimarães Rosa

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E, diante de tantas surpresas, vamos nos encaixando nas intempéries do cotidiano. Imergindo e emergindo a cada acontecimento regado a susto, dor ou impotência diante dos fatos e sistema aos quais estamos submetidos. Tempo em que estamos nos revelando, sendo escancarados e invadidos pelo “poder” que se instituiu “cuidador” da sociedade, deixando de olhar para o essencial: as relações; sem ter a real percepção do impacto que isto pode causar na humanidade. Estamos ficando transparentes. É tempo de A COR DAR. Nada ficará encoberto. Todas as máscaras estão escorregando na surpresa ou caindo no absurdo.  Como já disse anteriormente, sob a regência do Maestro do Universo que, na Sua peculiar delicadeza, não deixa passar nada, pois tudo que acontece Ele dá um jeitinho de transformar em mais uma oportunidade para o novo que se insinua. Cada um, a seu tempo, pode experimentar um outro jeito de caminhar, pois não temos mais a opção do “depois”. É aqui e agora. E, assim, passado, presente e f...

“Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria... Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos... Essa... a alegria que Ele quer” Guimarães Rosa

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E é essa alegria que colore e movimenta meu caminhar... Não pensem que acabou a “viagem”. Chegamos ao nosso destino: “a roça”: lugar encantado e mágico. Tia Carmelita vem nos receber vestida de florzinhas, olhar doce e sorriso  inesquecível que até hoje acalenta minha alma. Ao pé do fogão de lenha: café, leite tirado do peito da vaca, rosca, cubu, biscoito amarelo e de polvilho. Naquela época, lá não havia luz elétrica, água encanada e nem chuveiro.  Tomávamos banho em bacia de alumínio. Fazíamos fila. Não consigo lembrar ou imaginar um lugar melhor e mais bonito. O riso corria e escorria solto nos olhos e da boca. Desbravávamos lugares e brincávamos por todo canto. Pegávamos as frutas no pé, fresquinhas e deliciosas. A água vinha da fonte e descia pela bica até chegar num tanque. Eu adorava ir onde ela começava para molhar os pés imundos de terra, sujar a água e ouvir a titia gritar: “Quem está sujando a água? Desce daí... Ela sabia quem era.  Xingava e ria ao mesmo temp...

“Felicidade se acha é em horinhas de descuido” Guimarães Rosa

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E é no descuido que fazemos grandes descobertas, onde o olhar curioso da criança se aprimora e o riso cristalino rola solto na face.  Neste estado de consciência volto no tempo, à minha terra e infância e à Rua Wenceslau Braz onde nasci.  Esta foto de fundo do mês de setembro é a rua da ponte, o “fim que não acabou”. Pois se observarem, ao lado da última casa, o caminho vai se estreitando.  E nesse afunilamento começo uma outra viagem inesquecível. É uma estradinha de terra desnivelada, margeada por vegetação de todos os tipos e cores, com alguns formigueiros e caixas de marimbondos que nos proporcionavam mais adrenalina. Esta estrada nos levava para a “roça”, a casa dos meus tios Nonô e Carmelita, dois presentes inesquecíveis em minha vida e que; já voltaram pra “casa”, para as estrelas. Lá, passávamos férias e alguns finais de semana, dando folga para a vovó Neném. Só a “viagem” à pé já valia a pena. Íamos brincando e pulando, bebíamos água nas fontes e riachos, passáva...